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Silêncio Ferido: O drama do abuso de menores na Ilha do Fogo

 Junho é o mês em que as atenções se voltam para as crianças. No Fogo, porém, os sorrisos infantis têm sido manchados por um fenómeno que choca, mas que muitos ainda preferem não ver: o abuso sexual de menores. Apesar de se celebrar o mês da criança, por detrás de discursos e festividades escondem-se histórias de sofrimento, medo e impunidade que envergonham a comunidade. 

Nos últimos meses, a pequena ilha vulcânica tem estado no centro das atenções pelas piores razões. Casos de abuso sexual de crianças e adolescentes sucedem-se em diferentes concelhos e envolvem suspeitos que, muitas vezes, são figuras respeitadas na comunidade. Em abril deste ano, um advogado da região foi condenado a oito anos de prisão por abuso sexual de uma menor. A sentença marcou um raro momento em que a justiça mostrou a sua face implacável, mas também expôs o que tantas vezes fica oculto: o abuso praticado por quem devia proteger e defender.

Em junho, a Procuradoria-Geral da República confirmou a detenção de dois homens, de 33 e 43 anos, suspeitos da prática de crimes sexuais contra menores e maus-tratos a ascendentes, em São Filipe. Enquanto o mais jovem ficou em prisão preventiva devido à gravidade dos atos, o outro viu-lhe ser imposta a proibição de contactar as vítimas e o afastamento do lar familiar.  

Em 18 de junho de 2025, um advogado foi condenado a oito anos de prisão pelo Tribunal da Comarca de São Filipe, por ter abusado de uma menor de 13 anos. O juiz reforçou a pena devido à “gravidade dos atos” e à “condição de profissional do Direito” do réu. Ainda nos Mosteiros, quatro homens entre os 20 e os 45 anos foram igualmente detidos ou sujeitos a medidas de coação por crimes idênticos, revelando a dimensão do problema no seio das comunidades locais.

Segundo dados do Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente (ICCA), em 2024 foram registados 184 casos de abuso e agressão sexual contra menores em todo o país. No Fogo, os números continuam alarmantes: 41 denúncias, mantendo a ilha como uma das mais afetadas depois de Santiago. É verdade que o ICCA aponta uma ligeira redução em relação ao ano anterior, mas as autoridades não escondem a preocupação. “A situação da ilha do Fogo ainda levanta muitas inquietações. As denúncias são poucas face ao que sabemos que acontece na realidade. Há um silêncio pesado, fruto do medo, da vergonha e, por vezes, da cumplicidade”, alerta um técnico da instituição que preferiu não ser identificado. 

Esse silêncio torna-se o maior aliado dos agressores. Muitos casos só chegam às autoridades depois de anos de abusos, quando o trauma já se enraizou na vida das vítimas. Em vários pontos da ilha, sobretudo nas zonas rurais, o isolamento geográfico e a escassa presença das entidades de proteção dificultam a denúncia e o acompanhamento. “Os casos acontecem muitas vezes dentro das próprias famílias, ou com pessoas próximas, o que torna tudo ainda mais difícil. Há uma cultura de resolver dentro de casa, de não sujar o nome da família”, explica o mesmo técnico.

Em declarações recentes, a presidente do ICCA, Zaida Freitas, reconheceu que os esforços de prevenção e sensibilização precisam de ser intensificados, sobretudo no Fogo. “Temos feito campanhas, formações e acompanhamento psicológico, mas é necessário mais: mais agentes no terreno, mais articulação entre as instituições, mais coragem das vítimas e das famílias para falar”, defende.

O mês de junho, que devia ser uma celebração da infância e da alegria, revela-se, na verdade, um espelho de muitas falhas coletivas. Falhas que se refletem na ausência de estruturas de apoio psicológico suficientes, na fragilidade das redes de proteção social e no descompasso entre as leis existentes e a sua aplicação no terreno. O caso do advogado condenado ou as detenções recentes mostram que é possível fazer justiça. Mas são gotas num oceano de silêncio e impunidade. 

A luta contra o abuso de menores na Ilha do Fogo exige muito mais do que leis bem escritas ou palavras de ocasião. Exige ação firme, presença constante das autoridades, mobilização das comunidades e, acima de tudo, coragem para enfrentar tabus que, há demasiado tempo, escondem a dor das crianças atrás de portas fechadas. Que este junho não seja apenas mais um mês da criança marcado por discursos e festas, mas sim o ponto de viragem para uma verdadeira cultura de proteção da infância na ilha do vulcão.


Uma reportagem por: Deolinda Vieira


Fontes consultadas



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