O Vinho do Fogo, conhecido carinhosamente por manecon, é muito mais do que uma bebida tradicional: é a expressão da ligação profunda entre o povo do Fogo e a sua terra vulcânica. Produzido nas encostas e nas planícies negras da Chã das Caldeiras, o manecon carrega séculos de história e resistência.
As origens da produção de vinho no Fogo
Inicialmente, a produção destinava-se ao consumo local e a pequenas trocas comerciais entre as ilhas. Com o tempo, os habitantes do Fogo — descendentes de colonos, africanos e outros povos que se estabeleceram na ilha — desenvolveram técnicas próprias de cultivo e de vinificação. A vinha passou a ser um elemento central na economia de subsistência e na cultura alimentar da ilha.
O vinho produzido era (e é) conhecido pelo seu sabor forte e ligeiramente áspero, com características que refletem o solo onde nasce: rico em minerais e moldado pelo vulcão. O manecon era presença obrigatória nas festas religiosas, bandeiras e grandes encontros familiares.
Os protagonistas: famílias e cooperativas
Ao longo da história, a produção de vinho esteve associada sobretudo a pequenos produtores, muitas vezes famílias inteiras que dedicavam gerações ao cultivo da vinha e à produção artesanal. Entre as figuras mais marcantes da vitivinicultura no Fogo destacam-se nomes como:
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Família Montrond, descendente do francês Armand Montrond, que se estabeleceu na ilha no século XIX e introduziu novas práticas agrícolas em Chã das Caldeiras. Os Montrond foram pioneiros na organização da produção de vinho e na plantação sistemática da vinha no sopé do vulcão.
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Família Alcindo e Família Marisa, ligadas às conhecidas casas de acolhimento e produção de vinho em Chã das Caldeiras (Casa Alcindo e Casa Marisa). Estas famílias são, hoje, referências na preservação da tradição e na hospitalidade associada ao vinho.
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Cooperativa dos Produtores de Vinho de Chã das Caldeiras, criada na década de 1980, representa dezenas de pequenos agricultores. A cooperativa desempenha um papel essencial no escoamento, certificação e promoção do vinho, além de ter liderado os esforços de recuperação após a destruição causada pela erupção vulcânica de 2014.
Atualmente, o vinho do Fogo é comercializado dentro e fora da ilha e começa a ganhar reconhecimento no arquipélago e entre visitantes estrangeiros. A produção continua a ser maioritariamente artesanal, embora com algumas melhorias na técnica graças ao apoio de organismos estatais e de projetos de desenvolvimento rural.
Além do manecon tinto — o mais tradicional — há hoje produtores que investem também em vinhos brancos e rosés, licores e até aguardentes feitas a partir das uvas do vulcão. As visitas às adegas, as provas e os passeios pelos vinhedos são agora parte da oferta turística, com impacto positivo na economia local.
O manecon não é só um produto: é parte viva da identidade do Fogo. Produzido em condições únicas no mundo, entre pedras de lava e cinzas férteis, o vinho do Fogo simboliza a persistência de um povo que, geração após geração, soube tirar riqueza de uma terra difícil e transformá-la em orgulho e sabor.
Conheça Eduino Lopes, um dos produtores de vinho na ilha do fogo

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